[de poetas e casas (ou) de vidros e barros]
das narinas dessa usina,
que resfolega,
fumaçadas coloridas de poemas
são lançadas,
moto contínuo,
sobre o mundo.
do fundo fervente do cadinho
brota, ascende e escorrega,
rubra cascata em torvelinho
de palavras, sons e rimas
e, em borbotões de estrofes,
longo caudal de obras-primas.
em torno de cristalino tubo de ensaio,
de esguias cânulas, e transparentes,
de volutas de cianóticas brumas,
e vermelhas,
poetas criam sonhos ardentes,
idéias parelhas, mar de plumas.
de translúcida e esférica retorta,
uma primeira gota aporta
e outras, e tantas, que porejam,
exaustas, em desalinho:
do grande funil de vidro, então,
escorrem versos, e gotejam.
da alquimia fugaz dos universos
transparece, no frasco dos poetas,
a essência vítrea dos sonetos,
os poemas em luz e vidro submersos,
e as silhuetas claras, frágeis e seletas,
dos criadores de magias e amuletos.
derretida a sílica, e moldada
para conter o poema/alvenaria,
faz-se mister pisar argilas,
moldar tijolos e ergue-los,
um a um, torres e filas,
sólidos guardiões da poesia.
essa casa, ocre barreira envidraçada
- casulo de tão tênue conteúdo -
e o luzir do vidro a faiscar no barro,
trazem alguma dúvida, contudo:
se são de vidro os poemas nesse jarro,
e se são de barro os poetas nesse vidro.
[Poema de Alberto Gattoni - 11/09/10 por ocasião da intervenção cênica Poetas de Vidro no Centro Cultural Casa de Barro]



