Poetas de Vidro por Alberto Gattoni

Publicado: 28 de setembro de 2010 em Poetas de Vidro, Textos
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[de poetas e casas (ou) de vidros e barros]

das narinas dessa usina,

que resfolega,

fumaçadas coloridas de poemas

são lançadas,

moto contínuo,

sobre o mundo.

 

do fundo fervente do cadinho

brota, ascende e escorrega,

rubra cascata em torvelinho

de palavras, sons e rimas

e, em borbotões de estrofes,

longo caudal de obras-primas.

 

em torno de cristalino tubo de ensaio,

de esguias cânulas, e transparentes,

de volutas de cianóticas brumas,

e vermelhas,

poetas criam sonhos ardentes,

idéias parelhas, mar de plumas.

 

de translúcida e esférica retorta,

uma primeira gota aporta

e outras, e tantas, que porejam,

exaustas, em desalinho:

do grande funil de vidro, então,

escorrem versos, e gotejam.

 

da alquimia fugaz dos universos

transparece, no frasco dos poetas,

a essência vítrea dos sonetos,

os poemas em luz e vidro submersos,

e as silhuetas claras, frágeis e seletas,

dos criadores de magias e amuletos.

 

derretida a sílica, e moldada

para conter o poema/alvenaria,

faz-se mister pisar argilas,

moldar tijolos e ergue-los,

um a um, torres e filas,

sólidos guardiões da poesia.

 

essa casa, ocre barreira envidraçada

– casulo de tão tênue conteúdo –

e o luzir do vidro a faiscar no barro,

trazem alguma dúvida, contudo:

se são de vidro os poemas nesse jarro,

e se são de barro os poetas nesse vidro.

 [Poema de Alberto Gattoni – 11/09/10 por ocasião da intervenção cênica Poetas de Vidro no Centro Cultural Casa de Barro]

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